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Ouçam nossas vozes

“Lunático(a)”, “surtado(a)”, “esquizofrênico(a)”, “retardado(a)” e “maníaco(a)” são apenas algumas das palavras associadas pejorativamente a pessoas que vivem com esquizofrenia, transtorno psiquiátrico que afeta 1,6 milhão de brasileiros(as), sendo a terceira causa de perda de qualidade de vida entre indivíduos dos 15 aos 44 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)¹.

Referida como sinônimo de desordem, imprevisibilidade e falta de bom senso, a condição é utilizada erroneamente em contextos de política e futebol, reforçando o preconceito e o estigma que já existem em relação às doenças mentais e aos pacientes.

Esse preconceito, somado à desinformação, não afasta somente as pessoas com doenças mentais do convívio social, mas causa impactos negativos no diagnóstico e na adesão ao tratamento o que, consequentemente, prejudica o controle da doença, assim como todos os envolvidos: pacientes, família e sociedade.

Com o intuito de conscientizar as pessoas sobre a importância da linguagem inclusiva em saúde mental, a campanha Ouçam Nossas Vozes lança o “Dicionário Anticapacitista em Saúde Mental”, que traz luz contra o capacitismo, termo discriminativo que se refere à falta de aptidão e capacidade de uma pessoa com deficiência (física ou mental) de realizar tarefas².

Além de retirar certas palavras e expressões do vocabulário, empregando intencionalmente uma linguagem inclusiva, é importante ter em mente que quem vive com esquizofrenia pode ter uma vida ativa e autônoma ao seguir corretamente seus tratamentos e manter acompanhamento médico especializado.
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Dar visibilidade às pessoas com esquizofrenia para quebrar estigmas e preconceitos

A campanha Ouçam Nossas Vozes nasceu da necessidade de conscientizar a sociedade sobre essa doença mental séria, que, se não for tratada adequadamente, pode ter graves consequências tanto para os(as) pacientes como para quem está ao seu redor. Agora, a campanha avança em mais uma etapa, com o objetivo de dar voz aos(às) pacientes, ampliar o diálogo e quebrar estigmas e preconceitos relacionados à doença.

Apesar de não ter cura, a esquizofrenia pode ser tratada e ter os sintomas controlados – desde que haja diagnóstico e adesão ao tratamento prescrito pelo(a) médico(a). Com o transtorno sob controle, as pessoas com esquizofrenia podem ter uma vida plena e revelar todo o seu potencial, expressando talentos e habilidades que contribuem com a sociedade. A #OuçamNossasVozes é promovida com o apoio do Programa de Esquizofrenia (PROESQ) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Associação Mãos de Mães de Pessoas com Esquizofrenia (AMME), a Associação de Crônicos do Dia a Dia (CDD) e a Associação Gaúcha de Familiares e Pacientes Esquizofrênicos (Agafape).
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Não chame esquizofrenia de loucura

Diferentemente do que se imagina, a esquizofrenia é uma condição que pode ser compreendida. Ela possui particularidades: é uma doença que afeta o funcionamento do cérebro, relacionada a fatores como problemas na gestação e/ou no parto, problemas genéticos, problemas no amadurecimento do cérebro, fatores estressores além do que se pode suportar.

Quando esse conjunto de fatores atua em uma determinada condição e período da vida, a pessoa pode desenvolver a doença. Um dos efeitos que promove a alteração de comportamento no(a) paciente é o aumento da função da dopamina, uma das substâncias químicas que nosso cérebro produz para que os neurônios se comuniquem.
Entendendo os sinais

Os sintomas da esquizofrenia geralmente começam entre 15 e 35 anos de idade. Em casos raros, crianças também podem apresentar as características da doença. Os principais sintomas se dividem em três tipos: positivos, negativos e cognitivos.

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Tratamentos

Existem diversos fatores para o desenvolvimento de esquizofrenia: biológicos, psicológicos, ambientais e sociais. Por isso, o tratamento também precisa englobar abordagens múltiplas, passando pelo cuidado oferecido por médicos(as) psiquiatras e equipe de saúde multidisciplinar – incluindo tratamentos medicamentosos, psicoterapia e acompanhamento psicológico, além da atenção de familiares e da rede de apoio.

Evitar recaídas, ou seja, novos surtos psicóticos, é o foco do tratamento, não apenas pelo impacto desses episódios na qualidade de vida do(a) paciente e sua família, mas também pelas perdas biológicas cerebrais que eles podem causar. Quando a doença é tratada correta e continuamente, com a estabilização dos sintomas e prevenção de recaídas, é possível que o(a) paciente viva de forma mais autônoma e saudável. Medicamentos são frequentemente usados para controlar os sintomas da esquizofrenia por reduzirem o desequilíbrio bioquímico característico da doença, prevenindo recaídas. Para isso, a adesão correta ao tratamento proposto é fundamental. A falta de adesão ao tratamento é um grande desafio: apenas cerca de um terço dos(as) pacientes seguem à risca as prescrições de medicamentos que devem ser tomados diariamente. Os tratamentos injetáveis de ação prolongada podem ajudar nesse sentido: mensais ou trimestrais, eles têm rápida ação e previnem recaídas, acarretando menos hospitalizações e outros desfechos graves decorrentes da doença.
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Barreiras

A maior barreira é a aceitação da doença. Ela impacta na adesão ao tratamento, que também é comprometida pela dificuldade do(a) paciente de associar a terapia à melhora dos sintomas. A interrupção do tratamento contribui para a evolução do transtorno que, a cada crise, pode provocar danos cerebrais difíceis de serem revertidos.

Além disso, a cada episódio, a recuperação pode ser mais lenta e o transtorno pode se tornar mais resistente ao tratamento, com impactos severos na autonomia do(a) paciente. A demora do encaminhamento ao(à) profissional especialista é outro fator que compromete o tratamento da esquizofrenia.

Estigmas: é preciso mudar

Estereótipos estão enraizados em nossas rotinas e as complicações mentais acabam, muitas vezes, distorcidas. É comum escutarmos em nosso dia a dia piadas pejorativas e de mau gosto que equiparam esquizofrenia à desordem, imprevisibilidade e falta de bom senso. Isso banaliza uma séria condição de saúde, alimenta o estigma e ofende os(as) pacientes e suas famílias.

O desconhecimento geral da sociedade sobre a esquizofrenia e a realidade das pessoas que convivem com a condição contribui para a perpetuação do preconceito e consequente isolamento dos(as) pacientes. Desconstruir estigmas torna possível oferecer as oportunidades necessárias para melhora e recuperação de milhares de pacientes e famílias que convivem com a esquizofrenia.

TIRE SUAS DÚVIDAS:

Perguntas e respostas sobre a esquizofrenia
A esquizofrenia é considerada um transtorno mental grave e é definida como uma síndrome clínica complexa que compreende manifestações variadas de pensamento, percepção, emoção, movimento e comportamento.
A esquizofrenia acomete ambos os sexos na mesma proporção. No entanto, as diferenças entre os sexos na esquizofrenia são descritas em relação a idade média de início, apresentação clínica, curso da doença e resposta ao tratamento. Por exemplo, os sintomas tendem a se manifestar um pouco mais cedo nos homens.
A doença causa distúrbios mentais graves, caracterizados por distorções de pensamento e da percepção, por inadequação e embotamento afetivo, sem prejuízo da capacidade intelectual (embora, ao longo do tempo, possam aparecer prejuízos cognitivos).
Até o momento, não existe um exame laboratorial ou de imagem que permita confirmar o diagnóstico de esquizofrenia. O diagnóstico de esquizofrenia é clínico e baseado em critérios diagnósticos que precisam ser atendidos, como a presença de sinais e sintomas específicos e a exclusão de determinadas condições.
Apesar da estigmatização e de muitas pessoas relacionarem a esquizofrenia a atos agressivos, não é verdade que os(as) pacientes sejam pessoas violentas. O que pode ocorrer é que, em períodos de não tratamento ou de tratamento não efetivo, os(a) pacientes podem apresentar comportamentos agressivos e/ou inadequados em decorrência da manifestação dos sintomas.
As crises ou surtos se caracterizam por alterações comportamentais agudas causadas principalmente por alucinações ou delírios. As pessoas em surto psicótico costumam perder o contato com a realidade e reagem de maneira muito diferente do habitual. Entre os sintomas mais comuns estão os delírios persecutórios (sentir-se perseguido por outras pessoas) e as alucinações auditivas, como, por exemplo, ouvir vozes que, dependendo da intensidade e natureza, podem deixar o(a) paciente mais agitado(a) e agressivo(a).
Isso é possível dependendo de como é feito o tratamento. Alguns aspectos muito importantes são: o tratamento precisa ser iniciado o quanto antes e o deve ser seguido da forma correta para evitar novas crises ou surtos. Isso significa que os sintomas da doença são atenuados no dia a dia, possibilitando que a pessoa tenha uma vida ativa e autônoma, sendo capaz de estudar, trabalhar e se relacionar com a família, amigos e cônjuge.
Quando a esquizofrenia não está controlada, um dos sintomas observados pode ser a dificuldade de a pessoa iniciar algumas atividades e sentir dificuldade para mantê-las.
Não, essa atitude só reforça os estigmas e os preconceitos relacionados a quem vive com a esquizofrenia. A falta de informação, por falta de acesso ou de interesse, resulta em uma série de equívocos sobre a esquizofrenia. Graças ao progresso terapêutico, os(as) pacientes podem permanecer estáveis clinicamente. Dessa forma, devemos olhar para eles(as) com outros olhos e de maneira mais acolhedora.
Os medicamentos integram parte essencial do tratamento da esquizofrenia, mas, para que seja ainda mais eficaz, intervenções psicossociais, como as atividades educativas, sociais e ocupacionais, são necessárias. Elas podem contribuir muito para que os(as) pacientes com esquizofrenia melhorem a habilidade de conviver com a doença, se recuperem e tenham capacidade de se reintegrar à sociedade.

Para se aprofundar no tema, baixe gratuitamente o e-book preparado pela Dra. Ana Escobar.

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Ouçam Nossas Vozes - Allyson Mariano e Nando Reis

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Referências:

1 Dia Nacional da Pessoa com Esquizofrenia: doença, que tem tratamento, ainda é cercada de tabus. Ministério da Saúde. Disponível em: https://aps.saude.gov.br/noticia/12396 . Acesso em 16 de maio de 2021;
2 O que é o capacitismo e como ele se apresenta na sociedade. Fundação Telefônica Vivo. Disponível em: https://fundacaotelefonicavivo.org.br/noticias/o-que-e-o-capacitismo-e-como-ele-se-apresenta-na-sociedade. Acesso em 16 de maio de 2022;
3 Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde - CID-10. 8.ed. São Paulo: Edusp; 2000;
4 Sex differences in schizophrenia. Taylor Francis Online. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.3109/09540261.2010.515205 . Acesso em 16 de maio de 2022;
5 PCDT esquizofrenia. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Protocolos/pcdt-esquizofrenia-livro-2013.pdf . Acesso em 16 de maio de 2022;
6 No Dia Mundial da Saúde Mental, conheça os cinco mitos e verdades mais comuns sobre a esquizofrenia. Sindusfarma. Disponível em: https://sindusfarma.org.br/noticias/empresas-foco/exibir/7043-no-dia-mundial-da-saude-mental-conheca-os-cinco-mitos-e-verdades-mais-comuns-sobre-a-esquizofrenia . Acesso em 16 de maio de 2022;